Oryai: Jogos e brincadeiras indígenas

Douglas Geraldo Vasconcelos

Oryai: Jogos e brincadeiras indígenas

Projeto de Douglas Geraldo Vasconcelos

Contribuição do projeto para a educação

O racismo é um fenômeno estrutural na sociedade brasileira, produzido nos diversos espaços sociais, incluindo as escolas. Gomes (2001) afirma que as histórias e vivências não-brancas, em muitas situações, são silenciadas no processo de ensino-aprendizagem ou representadas de forma negativa.Torna-se fundamental problematizar e desnaturalizar essas concepções, no sentido de promover maior valorização da diversidade racial e cultural. Diante disso, é possível destacar a escola pública enquanto lócus gerador de saberes e práticas de educação e de socialização pois, segundo Cavalleiro (2001), é um campo potente e frutífero para engendrar novas histórias, transformações e promover a garantia de direitos sociais.

A Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008, altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Nesse sentido, o Projeto Oryai (que significa Brincadeiras no léxico Guarani, dialeto Mbyá) aqui proposto, incluiu um conteúdo programático da cultura indígena, com vista a resgatar as contribuições indígenas na área social e política na formação da sociedade nacional e desmistificar a imagem estereotipada do indígena pelos alunos.

Sendo assim, na tentativa de resgatar a cultura indígena e estimular a valorização da cultura nativa, surgiu a ideia de realizar essa proposta na E. M. Gercy Benevenuto, que está localizada no bairro Taúbas, zona rural da cidade de Ipatinga, Minas Gerais. Com um total de 83 alunos e 27 funcionários (PPP, 2019), funciona em período integral, de 7h às 16h, com os segmentos Educação Infantil e Ensino Fundamental I. É uma escola pequena e com grande participação dos familiares na vida escolar das crianças, pois a escola tem como principal característica o dinamismo e o uso do seu entorno para suas intervenções sócio-educacionais.

Aspectos curriculares atendidos pelo projeto

Em 2015, foi realizado no Brasil, na cidade de Palmas (TO), o I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas. Os jogos tinham o objetivo de reunir atletas representantes de povos indígenas de aproximadamente 24 países. Ao participar dos Jogos como espectador, surgiu a ideia de desenvolver uma proposta semelhante na escola, uma vez que a escola tem papel importante na conscientização da sociedade sobre a cultura indígena, e em se tratando de crianças, a melhor maneira é através do esporte, dos jogos e das brincadeiras.

Pelo fato de perceber uma visão estereotipada dos alunos em relação aos povos indígenas, essa proposta se torna uma estratégia antirracista e de valorização da diversidade racial e cultural indígena. Apesar de que a temática indígena é uma prática pedagógica pouco explorada na Educação Física, ainda que se configure como um conteúdo obrigatório no currículo escolar, conforme preconiza a Lei nº 11.645/08, é um conteúdo a ser potencializado na escola. Dessa forma, as brincadeiras, os jogos e os brinquedos indígenas constituem um vasto repertório da cultura corporal a ser desenvolvido e contextualizado na escola, pois contribuem para o contato com um universo de valores e significados desconhecidos por muitos. Nesse sentido, este projeto busca solucionar a seguinte questão: Como proporcionar conhecimento e valorização das práticas corporais das culturas indígenas à comunidade escolar? E tem como objetivo promover o conhecimento e valorização das práticas corporais indígenas à comunidade escolar.

A Educação Física é um componente curricular que oferece uma gama de possibilidades para enriquecer as experiências das crianças, jovens e adultos pois o movimento humano está sempre inserido no âmbito da cultura e não se limita a um deslocamento espaço-temporal de um segmento corporal ou de um corpo todo (BRASIL, 2016). Dessa forma, esta proposta é um conteúdo que se alinha à BNCC (Base Nacional Curricular Comum), quando se enquadra como objeto de conhecimento dentro da Unidade Temática “Brincadeiras e Jogos” dos anos iniciais.

Valorização da diversidade e inclusão

Quando desenvolvemos atividades de combate ao racismo, valorizando a diversidade e a inclusão na escola, estamos evitando com que a criança cresça com sentimentos que serão prejudiciais, a si e ao outro. Desmistificar essa diferença através dos jogos e brincadeiras indígenas elimina barreiras e prepara o aluno para a construção de relacionamentos saudáveis, valorizando as diferenças e desenvolvendo o conceito de empatia e igualdade.

A fim de contemplar todos os alunos e respeitando suas diferenças culturais, as atividades foram planejadas com o propósito de serem inclusivas e adequadas às necessidades e demandas específicas dos alunos, para que todos e todas possam participar. Até porque, atividades que envolvam movimento e relação do corpo com as diferentes culturas podem ser significativas para que as crianças se expressem com mais liberdade, autonomia, respeito e aceitação das diferenças. Vale ressaltar que nenhuma atividade desenvolvida necessitou de adaptação, uma vez que são de fácil execução e atendiam as capacidades física e cognitivas dos alunos com necessidades especiais.

Atividades desenvolvidas no Projeto

Este projeto foi desenvolvido com toda a comunidade escolar e foram necessárias as etapas seguintes: a pesquisa aprofundada, o planejamento, a execução das atividades e a avaliação.

A primeira semana de setembro foi utilizada para a pesquisa aprofundada sobre os jogos, as brincadeiras e os brinquedos indígenas que foram desenvolvidos com os alunos. Como fonte de pesquisa foram utilizados sites, revistas e livros que continham diversos segmentos da cultura nativa. Os livros Giramundo e outros brinquedos e brincadeiras dos meninos do Brasil (MEIRELLES, 2007) e O Jogo da Onça e outras brincadeiras indígenas (LIMA; BARRETO, 2005) foram os principais norteadores da proposta. A partir deste estudo sistematizado, foi feito o planejamento semanal do projeto, com as atividades iniciando no dia 9 de setembro e culminando com os Jogos Indígenas do Taúbas, no dia 8 de outubro de 2019.

Em seguida, iniciando as atividades, que foram com alunos do 1º ao 5º ano, no intuito de investigar o conhecimento prévio a respeito da cultura nativa, foi feito uma roda de conversa com perguntas do tipo: Já viram algum índio pessoalmente? Já visitaram alguma aldeia indígena? Sabem onde vivem os índios do Brasil? Após essa investigação, foi explicado aos alunos que as aulas de Educação Física, a partir de então, teriam como tema os jogos e as brincadeiras indígenas e que todas as aulas iniciariam com um mito, história ou vídeo indígena. Depois, aconteceriam os jogos, as brincadeiras ou a confecção de algum brinquedo, finalizando a aula com alguma música indígena.

As brincadeiras, os jogos e os brinquedos ensinados foram: cabo de força, heine kuputisú (corrida de um pé só), tolói cunhungu (espécie de coelhinho-sai-da-toca), arranca mandioca, o sol e a lua, kolidihõ (semelhante a bocha), corrida de tora, briga de galo, jogo da onça, cama-de-gato, hori-hori (zunidor), currupio.

Durante todo esse processo, acreditando ser uma oportunidade de interagir com as vivências culturais indígenas, recebemos a visita da aldeia Gerú Tucunã, etnia Pataxó, da cidade de Felicina (MG), nos dias 7 e 8 de outubro. No dia 7 fizemos um momento cultural aberto à comunidade, onde todos os presentes interagiram, cantaram e dançaram com os indígenas. Já no dia 8, aconteceu na escola os Jogos Indígenas do Taúbas envolvendo toda a comunidade escolar e outras duas escolas, também da zona rural de Ipatinga. Dentre todas as atividades ensinadas, foram selecionadas seis para composição dos jogos. Nos Jogos Indígenas não tem premiação, uma vez que a proposta tem caráter cooperativo e não competitivo.

Vale ressaltar que, todas as atividades propostas, além de acessíveis e de baixo custo, o que possibilita a aplicação em outras escolas em diferentes contextos, também são inclusivas, permitindo a participação de todos os alunos.

Instrumentos utilizados na avaliação

Entende-se que o objetivo da avaliação é descobrir o que o aluno aprendeu. Por isso, o professor deve considerar alguns aspectos no seu método avaliativo, ou seja, o que permitirá o reconhecimento da aprendizagem do aluno, e só a partir de então, definir qual a melhor forma de avaliá-lo. Acreditando ser os métodos mais adequados a serem aplicados neste projeto, os instrumentos avaliativos utilizados foram entrevistas, observações e rodas de conversa.

Resultado observado

Embora seja um projeto que foi desenvolvido nas aulas de Educação Física, é uma proposta interdisciplinar e integral, envolvendo as demais áreas do conhecimento e a comunidade, de forma que não se limita a datas comemorativas ou a uma disciplina específica.

A partir dos instrumentos utilizados para a avaliação do projeto, observou-se que, com a vivência das atividades, houve o surgimento de um novo olhar sobre o indígena, um olhar mais humano e mais respeitoso, que esta proposta os aproximou, por propiciar o aprendizado de atividades lúdicas, de tradições e uma afirmação de identidade cultural, corroborando a ideia de que os jogos, as brincadeiras e os brinquedos são importantes ferramentas na transmissão de conhecimentos e saberes. O contato com a aldeia indígena também teve o potencial de contribuir para uma aprendizagem significativa, pois assim a comunidade escolar não está apenas aprendendo “sobre” o tema, mas sim aprendendo “com” as vivências indígenas, o que aproxima e integra ainda mais, e também favorece a permanência dos alunos na escola.

Dessa forma, as aulas de Educação Física se configuram como um ambiente propício para a reflexão acerca das diferenças existentes entre os indivíduos e, além disso, as situações emergidas durante o desenvolvimento das atividades serviram como oportunidade para a melhoria da convivência entre os educandos e comunidade escolar como um todo, contribuindo para a sua formação integral e promovendo a criticidade sobre os valores sociais.

O texto deste projeto foi enviado pelo autor e é de responsabilidade do autor deste projeto.

Projeto ajuda no desenvolvimento de quais competências?

Repertório culturalEmpatia e cooperaçãoResponsabilidade e cidadania

Horas/Aulas aplicadas ao projeto.

12 horas diárias

12 horas diárias

Público-alvo do projeto.

Fundamental I

Horas/Aulas aplicadas ao projeto.

Parque

Escola Pública

Escola Particular

Quantidade adequada de participantes.

300 participantes

300 participantes

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

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